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A Ilha dos sonhos tomada pelas chamas dos Mentirosos. | Resenha: Mentirosos (contém spoilers)

Avaliação:

★ ★ ★ ★ ☆ - muito bom, ótimo

Resenha:

"Se você já sabe com apenas um olhar, é lendário." Mas o que acontece quando aquilo que você jurava ser lendário se revela uma mentira? Essa é a pergunta que Mentirosos aluga um triplex na sua cabeça e que loml, da Taylor Swift, se conecta com o livro.

Bem-vindo à bela família Sinclair.

É assim que o livro começa.

Os Sinclair são atléticos, altos, lindos, democratas tradicionais, ricos. O avô Harris construiu uma ilha inteira ao redor da própria vaidade: três casas para as três filhas: Windemere para Penny, Red Gate para Carrie, Cuddledown para Bess…como se amar filhas fosse o mesmo que distribuir propriedades. O único "fracasso" de Harris, segundo ele mesmo, foi nunca ter tido um filho homem. Deu pra entender que tipo de rei é esse, né? (fica ai o questionamento que já sabemos a resposta)

E as filhas? Penny, Carrie e Bess cresceram dentro desse amor condicionado, treinadas para sorrir mesmo quando o coração sangrava e passaram a vida adulta disputando, a herança do pai. Não por ganância mas pela coisa mais trágica do mundo: porque era a única forma de amor que Harris sabia oferecer. Quem fica com a casa de Boston? Quem cuida do vovô agora que a vovó morreu? Quem é a filha preferida desta semana? As cenas em que as três brigam à mesa são perturbadoras, pois isso acontece em muitas famílias na vida real. E assim já percebemos que nenhuma delas é vilã da história. São todas filhas querendo ser escolhidas pelo pai, elas querem o amor dele.

E falando em Tipper: a avó morreu antes dos eventos principais do livro, mas ela é um dos personagens assombra cada página dessa narrativa. Era ela quem fazia colchas, dava balas de menta para as crianças, deixava os golden retrievers dormirem com todo mundo, acordava cedo para fazer panquecas. O sabonete dela ainda estava nas saboneteiras. O perfume Chanel ainda estava nos tecidos da sala de artesanato. Quando Cady vai até esse cômodo e literalmente derrete de saudade, eu precisei pausar a leitura. A Lockhart entende que os mortos vivem nos objetos pequenos.

Os cachorros são personagens importantes. A vovó Tipper sempre teve golden retrievers, era ela quem os amava antes de tudo, antes de qualquer discussão de herança. Depois que ela foi, os cães ficaram como lembrança viva dela pela ilha. Bosh, Grendel e Poppy sobrevivem ao verão dos quinze, já a Fátima e Príncipe Philip não, e essa é uma das feridas que não vai cicatrizar para quem leu. Eram os cães da Família Sinclair, os bagunceiros, os que comiam estrela-do-mar na praia e vomitavam na sala, os que dormiam no quarto dela. Ela sabia onde eles estavam na noite do incêndio. Os outros Mentirosos não pensaram neles. Ela pensou, e mesmo assim. Essa camada gigantesca de culpa, é devastadora.

E então chegam os Mentirosos.

Cady, Johnny, Mirren e Gat. Os quatro que cresceram juntos nos verões da ilha, que se tornaram um dentro do outro, que inventaram mundos e escreveram nomes no dorso das mãos. Gat. Cadence. Cadence. Gat.

Cady e Gat têm aquilo que a Taylor descreve em loml: aquele amor que parece lendário à primeira vista, que vai de um beijo ao casamento antes que você perceba. Mas, como em toda boa tragédia, o que parecia eterno era passageiro. "What we thought was for all time was momentary."

E enquanto o amor deles queimava de um jeito bonito, a família ao redor deles queimava de outro: pela ganância, pelo orgulho, pelas estátuas de marfim que Harris comprava na China e exibia nas casas como troféus. Foi aí que os Mentirosos decidiram fazer o que os adultos nunca fariam: agir de verdade. Queimar o símbolo. Queimar a casa. Reduzir a cinzas aquilo que estava sufocando todo mundo.

O problema é que incêndios não obedecem a intenções.

O incêndio de loml e o incêndio do livro se espelham de um jeito que me deixou sem chão. Ambos falam de perda irreversível, de amor que continua existindo mesmo depois que tudo queima, de tentar dançar sobre chamas reacesas sem perceber que elas já consumiram tudo. "And all at once, the ink bleeds." A tinta vaza. A fumaça sobe. E o que restou foi Cady, sozinha na praia, sem os Mentirosos, sem memória, sem os cachorros, apenas a culpa.

Minha única frustração: queria mais tempo com Gat, Mirren e Johnny. Eles vivem tão vívidos em gestos pequenos: a raiva honesta da Mirren, o sarcasmo que era afeto do Johnny, a ambição transbordante do Gat, que quando a revelação chegou, meu coração não estava preparado para encerrar o luto. Quando o livro estava me prendendo de verdade, ele já tinha acabado.

Mas sabe o que isso significa? Que a Lockhart criou personagens que merecem mais mundo do que ela deu a eles.

Mentirosos usa a beleza como armadilha. Te seduz com a ilha, com o amor de verão, com a linguagem cortante e precisa da Lockhart, e então te entrega a conta com os juros embutidos.

Como a Cady escreve nas mãos no final: "Seja um pouco mais gentil do que precisa ser."

Esse livro não foi gentil comigo. Afinal, nem a vida real é gentil conosco, mas nós precisamos ser.

Até o próximo post!

Beijuxxx,

Bea.🍒

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