Pular para o conteúdo principal

Helena Marino foi apagada da história, mas Kaine Ferron a viu por inteira. | Resenha: Alchemised (contém spoilers)

Helena Marino foi apagada da história em uma nota do rodapé e ainda assim, no meio da guerra, Kaine Ferron a viu por inteira.


Avaliação:
★ ★ ★ ★ ★ - perfeito, amei muito
♥︎ - favoritado

Alchemised, de SenLinYu, é o tipo de livro que você não lê, você sente atravessar o seu coração de um jeito que nenhum outro livro te atravessou.

Quase 960 páginas sobre o que resta de uma pessoa quando a guerra tira tudo: o país, o corpo, as pessoas que ela amava, o direito de ser lembrada. Helena Marino acordou num mundo que a apagou antes mesmo de terminar de destruí-la. E ainda assim ficou de pé.

Precisei de alguns dias respirando fundo antes de conseguir escrever isso, porque tudo que tentei redigir antes soava pequeno demais para o que esse livro é (sim, o livro é gigantesco tanto na quantidade de páginas quanto na história em si). Com uma escrita densa e descritiva e muito explicativa, Alchemised entrou no meu Top 5 livros.

O mínimo que precisamos saber (aviso: durante o decorrer da leitura desta resenha contém muitos spoilers):

A história começa com a nossa Helena acordando no escuro, não metaforicamente. Literalmente: ela desperta depois de quatorze meses presa consciente dentro de um tanque de inércia, sem poder mover o corpo, sem ver, sem ouvir nada além de choques elétricos a cada três horas, programados para que seus músculos não atrofiassem. No começo ela contava os segundos entre um choque e outro. Dez mil e oitocentos, sem falha, sem variação. Depois parou de contar, com medo de descobrir até onde o número havia chegado. Criou rotinas mentais para não enlouquecer: imaginou caminhadas, montanhas, releu mentalmente todos os livros que já tinha lido. Disse a si mesma que estaria pronta quando alguém viesse.

Ninguém foi.

O detalhe que não sai da minha cabeça é esse: os outros prisioneiros foram paralisados inconscientes, com agulhas nas veias e máscaras no rosto. Helena foi mantida acordada dentro do próprio corpo. Isso foi uma escolha deliberada de quem a colocou lá. O livro deixa isso claro e não explica por quê logo de cara, e é exatamente essa falta de explicação que corrói.

A Resistência perdeu a guerra. Todos que ela amava estão mortos. E quando a tiram de lá, o mundo que encontra é uma cidade inteira vivendo sob o terror de um regime de necromantes que usa cadáveres como ferramentas e chama isso de civilização.

Alchemised está muuuuito longe de ser um romance fofinho com final feliz.

Ele tem amor. Mas o amor aqui existe no mesmo espaço que a guerra, o trauma e a sobrevivência, e não ocupa mais espaço do que qualquer um deles. Se você vier esperando romantismo o tempo todo, esquece. O que Alchemised aborda é o que resta de uma pessoa quando tudo é tirado dela e o que ela decide fazer com o que resta.

A vida de Helena Marino: dentro da Resistência (e mesmo antes da Guerra Necromante), Helena Marino era chamada de "bichinho de estimação dos Holdfast." Isso tava muito longe em ser elogio. Era a forma como as pessoas descreviam uma estrangeira de Etras que havia conseguido uma bolsa para estudar no Instituto de Alquimia de Paladia e acabado trabalhando como curandeira na Ordem da Chama Eterna. Ela não tinha família na cidade, não tinha guilda, não tinha status. Tinha habilidade e tinha Luc (seu melhor amigo). E isso, para quem estava de fora, era tudo que ela era.

Seu superior direto era o Falcão Matias, conselheiro espiritual do Conselho da Chama Eterna. Matias tinha visões muito específicas sobre vitamantes. A vitamancia era rara e, por ser rara, suscitava boatos de que vitamantes podiam controlar os vivos assim como necromantes controlavam os mortos. Matias não chegava a acreditar nisso abertamente, mas era rígido: atos de vitamancia só poderiam ser purificados por intenções altruístas, não poderiam ser documentados de formas que os glorificassem, e a existência de Helena como curandeira precisava ser contida dentro dos limites que ele definia. As aprendizes que foram designadas a Helena mais tarde? Foram enviadas porque Matias queria se livrar dela. Quando Helena foi esterilizada, Matias pediu que seu útero fosse removido.

Helena curou pessoas durante anos, sozinha, sem reconhecimento formal, sob um superior que tolerava sua existência como algo a ser administrado.

Quando Crowther e Ilva precisaram da espionagem de Kaine Ferron, as condições que ele impôs foram anistia por tudo que cometesse durante a guerra e Helena, tanto durante quanto depois dela. Ela tem que extrair informações de espionagem dele. Ele impôs ela como condição do acordo. Crowther apresentou isso num tom casual, como uma variável de negociação. Ilva ficou pálida mas não recusou. Quando Helena entendeu o que estava sendo pedido, disse que aceitava sem precisar de tempo para pensar, porque havia acabado de defender em voz alta que a Resistência deveria fazer o que fosse preciso para ganhar a guerra, independentemente do custo pessoal. Crowther usou as palavras dela contra ela na mesma frase.

Ilva guardava outra coisa de Helena: a história verdadeira de Paladia. O mito fundador dos Holdfast dizia que Orion foi abençoado por Sol ao derrotar o Necromante na Primeira Guerra Necromante. A versão real, que Ilva conhecia e escolheu não contar a ninguém, era outra. O Necromante era um vitamante que convenceu toda uma cidade a confiar nele prometendo imortalidade, vinculou as almas das pessoas numa substância, e as usou como necrosservos. Quando Orion o enfrentou, as almas ainda estavam conscientes e sabiam da traição. O Necromante perdeu o controle, e a Pedra que continha aquelas almas se voltou contra ele. Orion sobreviveu. Permitiu que as pessoas acreditassem que havia sido um milagre de Sol porque temia que, se a verdade fosse revelada, outros tentariam replicar o método. Quando Ilva finalmente contou isso a Helena, a reação foi de raiva. Porque Luc passava a guerra inteira achando que não merecia o milagre, que ainda não havia sofrido o suficiente, que era culpa dele a Resistência estar perdendo. Ele estava sendo destruído por uma mentira que existia há gerações, e Helena era uma das últimas a saber.

Helena e Kaine. O que a guerra faz com duas pessoas que não tinham mais nada a perder: antes de qualquer coisa, eles já se conheciam. Não pessoalmente, mas sabiam um da existência do outro. No Instituto de Alquimia, eram do mesmo ano, tinham aulas juntos, trabalhavam como assistentes nos mesmos andares de pesquisa. No Exame Nacional, o primeiro lugar oscilava entre dois nomes: Helena Marino e Kaine Ferron. Uma rivalidade que nunca foi direta porque ele era das guildas, e pessoas das guildas não falavam com o bichinho de estimação dos Holdfast.

Quando se encontram dentro do regime, os dois estão no pior momento possível das próprias vidas. Helena acabou de sair de um tanque de inércia e descobriu que todos os seus estão mortos. Kaine é o Alcaide-mor, o nome que faz as pessoas passarem mal de ouvir.

O que o livro constrói devagar é que os dois são, no fundo, a mesma coisa: pessoas completamente sozinhas que aprenderam a funcionar sem depender de ninguém porque nunca tiveram outra opção. Helena era estrangeira, sem família, sem guilda, tolerada pelo superior que a via como problema a ser administrado, negociada por dois líderes da Resistência como se fosse uma variável de cálculo. Kaine foi forjado para ser uma arma desde os dezesseis anos, odiado por todos os lados, sem ninguém que o conhecesse por inteiro, carregando sozinho o peso do que fez pela mãe e do que o regime fez com ele depois.

A conexão começa com dois anéis de prata com harmonia espelhada, uma transmutação raríssima: se um esquentasse, o outro sentia. Era um sistema de comunicação de espionagem. Com o tempo virou outra coisa.

O primeiro beijo de Helena foi com ele. O livro deixa isso claro, e deixa claro que ela sabia disso enquanto acontecia.

A virada que eu senti foi quando Kaine chorou na frente dela pela primeira vez. E Helena pensou que pela primeira vez, Kaine Ferron estava sendo completamente humano diante dela. Ela atravessara as muralhas dele, arrancara as camadas de malícia e crueldade, e descobrira que ali dentro havia um coração partido. Isso era algo com que ela poderia lidar.

Em algum momento do livro, Helena diz a ele: achava que éramos opostos. Agora não consigo deixar de sentir que somos muito parecidos. E Kaine responde que ela é melhor do que ele, que o instinto dela é salvar as pessoas, quem quer que sejam, o que quer que tenham feito a ela, e que o preço que isso cobra dela é mais alto do que qualquer coisa que ele já fez.

Eles não têm uma história de amor fácil. O contexto em que se aproximam é coerção, guerra, sobrevivência. Não existe romantização. O que existe é dois seres humanos que, no meio de tudo, foram os únicos que se viram de verdade.

O que os dois abdicaram não cabe numa lista. Helena abriu mão do país de origem, dos estudos que o pai deu tudo para que ela fizesse, do próprio corpo, da história que construiu dentro da Resistência, do direito de ser lembrada. Kaine abriu mão de qualquer chance de uma vida normal desde os dezesseis anos, do próprio corpo, de ser visto como alguma coisa além de monstruoso, de um futuro que não fosse servir a um regime que o usava.

O que ficou marcado também não some, como os buracos nos pulsos de Helena que a filha nota oito anos depois. Os tremores nas mãos de Kaine que pioram sob estresse e que forçar só deixa pior. O coração de Helena que bate rápido demais para viagens longas. As cicatrizes nas costas de Kaine que Helena curativa noite após noite.

Depois do nascimento de Enid Rose Ferron, Helena diz a Kaine: nós não tivemos escolha. Você não teve escolha (Sobre tudo o que aconteceu com eles, principalmente ao fato de Stroud ter abusado dos dois - tem haver com o programa nojento de repovoamento). Aí eu desabei. Os dois foram vítimas e não tinham direito a escolha.

Tempos depois, quando Helena diz após Lila tenta convencê-la a voltar para Paladia: não existe versão de mim que sobreviveu à guerra sem Kaine. É o que sobra quando duas pessoas que não tinham nada constroem algo no único espaço que o mundo deixou para elas.

Top 3 maiores ranços em Alchemised:

  1. Stroud
  2. Morrough
  3. Ordem da Chama Eterna vulgo Ilva, Matias e Crowther

Sobre a nojenta da Stroud: há um programa de repovoamento conduzido pela cientistas Stroud: mulheres prisioneiras usadas para eugenia, para experimentos, para produzir crianças com repertórios alquímicos selecionados. Os jornais da época descreviam isso com terminologia científica e adjetivos como "inovador." Nunca havia explicação sobre quem criava esses "recursos." Nunca havia menção a indivíduos. Stroud perfurou os dois pulsos de Helena com um instrumento cirúrgico para implantar tubos que bloqueavam sua ressonância, o ferimento fechando sozinho no processo, sem sangue, sem como se remover depois. Ela também reverteu a esterilização de Helena sem consentimento para incluí-la no programa, e isso foi um soco no estômago durante as próximas cenas que ocorreram sobre essa questão.

E o que acontece depois da libertação? As nações aliadas pedem para as mulheres seguirem em frente. Dizem que mães "histéricas" não seriam testemunhas confiáveis. Tratam o programa como uma ideia diabólica surgida do nada durante o regime, apagando o fato de que a criação seletiva já estava enraizada na cultura das guildas muito antes da guerra. O livro coloca isso ali, de modo que deixa um nó na garganta.

Todos os personagens centrais fazem alguma versão do mesmo sacrifício.

Param de ser sujeitos das próprias histórias para virar instrumentos de algo maior. A pergunta que a história faz em cada página é: o que uma pessoa faz com a própria vida quando a vida que planejou foi tirada dela por forças maiores do que qualquer escolha individual? E a resposta que Alchemised oferece não é a vitória.

Como foi elencado, o coração de Helena bate rápido demais para viagens longas. É o que ela conta para a filha quando ela quer ir para Paladia. Não é metáfora. O trauma virou fisiológico. Ela toma remédio. Ela pressiona a mão no próprio peito ao longo do livro em situações de estresse, uma reação que o corpo aprendeu e não desaprendeu. Anos depois da guerra, já numa ilha em exílio, Enid olha para os pulsos da mãe e pergunta por que ela tem buracos que ninguém mais tem. Helena explica o mínimo, vai até o armário, coloca um comprimido na boca e bebe água.

Kaine Ferron tem dezesseis anos quando mata Apollo Holdfast. O que o mundo sabe é que ele arrancou o coração do Principado na entrada da Torre da Alquimia. O que o livro revela é o motivo: Morrough e Bennet estavam usando a mãe dele como cobaia. Faziam coisas com ela e revertiam o processo para não deixar vestígios. Ele a ouvia gritar por horas. Kaine matou o Principado porque era a única moeda que tinha para negociar a soltura da mãe. Ela foi solta. Nunca se recuperou. Morreu depois pela deterioração que a tortura deixou nela.

Ele carrega nas costas uma matriz entalhada na pele, projetada para forjar nele oito qualidades: Astucioso, Calculista, Dedicado, Determinado, Impiedoso, Infalível, Irredutível, Resoluto. Alguém tentou esculpir um ser humano. Ele se ofereceu como espião da Resistência e pagou com o próprio corpo cada vez que foi descoberto. Nunca se recuperou por completo da tortura de Morrough. Sob estresse, os tremores nas mãos pioram. Ele tenta mantê-los imóveis e forçar só deixa tudo pior.

Os dois chegam ao fim do livro vivos, juntos, numa ilha pequena. Não é a vida que nenhum dos dois planejou. É o que sobrou depois de tudo que foi tirado. E o livro trata isso com seriedade, sem transformar esse "sobrou" em redenção bonita.

Agora sobre o epílogo: o que me quebrou de vez.

Enid Ferron, filha de Helena e Kaine, criada em exílio com olhos prateados do pai, chega em Paladia pela primeira vez. Ela pega um livro sobre a Guerra Necromante. Encontra uma foto da mãe ao lado de Luc Holdfast e Soren Bayard. Lê a legenda:

"Marino deixou a cidade no início da Guerra Civil Paladiana para estudar cura. Apesar de sobreviver à guerra, morreu na prisão antes da Libertação. Não era um membro ativo da Ordem da Chama Eterna e não participou dos combates." E nós, que lemos quase 960 páginas, sabemos exatamente o quanto isso é uma mentira. Sabemos o que Helena aguentou. Sabemos o que ela fez. Sabemos quem ela era. E o livro não nos dá uma correção. Não tem uma cena em que a verdade é revelada. Tem apenas Enid com o queixo tremendo, dizendo que a mãe "não deveria ser uma nota de rodapé." Isso me fez chorar de um jeito que não consigo explicar direito, porque é exatamente assim que a história funciona no mundo real. As pessoas que mais aguentaram costumam ser as mais apagadas.

Alchemised é uma fantasia sombria que leva a sério a própria premissa. Tem avisos de conteúdo importantes: violência de guerra, trauma complexo, agressão sexual. O livro não suaviza o que o regime faz com as pessoas. Mas no meio de tudo isso tem algo que fica: a ideia de que sobreviver pode ser um ato de resistência. Que amar alguém depois de tanta destruição é uma escolha corajosa. Que as histórias que ninguém conta ainda aconteceram.

Até o próximo post!

Beijuxxx,

Bea.🍒

Comentários