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Resenha | Sete Espinhos Mortais: cadê o resto dessa história, minha filha? Vai acabar assim mesmo?

 Tem livros que chegam com a cara de quem vai mudar a sua vida e no final você fecha a última página com aquele misto confuso de ter amado e ter sido abandonada no meio de uma frase. Sete Espinhos Mortais, estreia de Amber Hamilton publicada no Brasil pela Editora Seguinte, é exatamente esse tipo de experiência. Prometeu tudo e entregou o suficiente para gerar perguntas. E agora eu estou aqui, olhando para a capa, com um monte de perguntas que o livro deixou em aberto e sem uma continuação confirmada para responder nenhuma delas.



♡⋆˙ avaliações:

★ ★ ★ ,5 ☆ ☆ - razoável

Terminei Sete Espinhos Mortais com uma sensação muito difícil de explicar, porque foi uma leitura que conseguiu me fazer sentir praticamente tudo ao mesmo tempo. Eu gostei da história, gostei dos personagens, gostei da proposta, gostei do universo e, principalmente, gostei de perceber que existia muito mais por trás daquela trama do que era apresentado inicialmente. Mas, ao mesmo tempo, terminei o livro com aquela sensação de “tá… mas era só isso?”. E talvez esse seja o maior problema que encontrei durante a leitura: Sete Espinhos Mortais é um livro que promete MUITO, constrói um universo cheio de possibilidades, apresenta personagens com histórias interessantes e levanta uma quantidade enorme de perguntas, mas, quando finalmente chega ao momento em que deveria entregar tudo isso, parece correr para colocar um ponto final.

A história se passa em Aragoa, um reino que foi colocado de joelhos pelas Brumas (nuvens de veneno) enviadas pelo reino inimigo Castelle décadas atrás, que mataram toda vida vegetal e animal do lado de fora das muralhas. Toda a população do país foi espremida dentro de um único castelo: nobres e plebeus num mesmo espaço, mas com hierarquias bem claras. As cavernas abrigam os mais pobres. Os andares altos, a nobreza e no topo, a família real Roquelart.

Dentro do castelo funciona a Academia Vandenberghe, uma escola de elite onde os filhos das melhores famílias estudam, mas que também recebe alunos talentosos de origem humilde por mérito. É ali que tudo começa. E é ali que tudo vai desmoronar.

O mundo desse livro é rico. Às vezes denso demais. O primeiro espinho (obs: o livro é dividido em sete partes, uma para cada dia do prazo que a rainha dá para o filho matar a protagonista) vai exigir paciência da sua parte. Há muita coisa sendo construída, e a sensação é de estar aprendendo o idioma de um mundo enquanto a urgência da trama ainda não chegou, mas chegará.

No começo, a história é bem mais lenta. Somos apresentados a Viola Sinclair, uma estudante da Academia Vandenberghe que vive escondendo um segredo que poderia custar sua vida: ela é uma meiga, alguém capaz de usar magia. Em Aragoa, os meigas são perseguidos e mortos, então Viola passou boa parte da vida tentando controlar e esconder as sombras que existem dentro dela. Ela acredita que precisa manter aquela parte de si mesma escondida para sobreviver e, principalmente, acredita que sua magia faz dela uma pessoa perigosa. Essa culpa acompanha Viola durante boa parte da história, principalmente por causa da lembrança do irmãozinho, cuja morte ela acredita ter causado quando ainda era criança.

E eu gostei bastante da construção da Viola justamente por isso. Ela é uma protagonista que tem personalidade própria, é inteligente, curiosa, teimosa e muito determinada. Ela não aceita simplesmente as respostas que recebe e está constantemente tentando entender o que está acontecendo ao seu redor. Ao mesmo tempo, existe uma fragilidade muito grande nela, porque durante toda a vida Viola acreditou que havia alguma coisa errada consigo mesma. Ela não carrega apenas o medo de ser descoberta como meiga, mas também a sensação de que sua própria existência pode machucar as pessoas que ama. E acho que essa é uma das partes mais interessantes da personagem.

Até que entra Roze Roquelart, o príncipe de Aragoa e, inicialmente, uma das pessoas mais insuportáveis que Viola poderia ter encontrado. Ele é construído como um vilão e vai sendo desmontado, peça por peça, ao longo de toda a história. Seus cabelos brancos como a neve, olhos que parecem prateados (mas são azul-claro sob a luz do sol e isso importa), uma tatuagem de mariposa-caveira no pescoço que abre as asas quando ele engole, um brinco de rosa negra na orelha esquerda em referência narcisista ao próprio nome. E as luvas pretas de couro que nunca saem das mãos…as luvas não são por estética, no decorrer da história, o príncipe revela que o simples toque das mãos nuas tem o poder de envenenar. Ele não pode tocar em ninguém com a pele, nunca pôde, e o que isso significa para um ser humano? A solidão do contato impossível, é trabalhado no livro de um jeito que vai te partir ao meio.

Roze é arrogante, provocador, cruel e tem uma relação extremamente complicada com o próprio poder. Ele é conhecido como o Caçador, aquele que executa meigas em nome da Coroa, e carrega no braço os sete espinhos que representam suas execuções. Só que, conforme a história avança, percebemos que existe muito mais por trás daquele comportamento.

A origem de Roze é provavelmente o elemento mais inesperado da história: ele não nasceu. Quando Castelle destruiu a terra natal da rainha Maria ao fim da guerra, ela despejou toda a dor e o ódio que sentia sobre o solo, e Roze brotou dali, uma criação do poder dela, literalmente o ódio encarnado. Isso o deixa numa posição existencial singular: real demais para ser ilusão, ilusório demais para ser vivo de verdade. Ele passa o livro inteiro carregando isso como uma sentença.

Ou seja, na verdade, ele é um personagem completamente moldado pela mãe. A rainha Maria o transformou em uma arma e, durante muito tempo, ele simplesmente obedeceu às ordens dela. Só que a morte do pai, o rei Alexandre, faz com que ele comece a questionar tudo aquilo que acreditava. Ele não aceita a versão oficial da morte do pai e começa a investigar o que realmente aconteceu. É justamente nessa investigação que Viola acaba entrando na história.

O que a autora faz de melhor nessa história é o trabalho de desconstrução do Roze. O bullying nos corredores vai cedendo espaço para um garoto que aprendeu que demonstrar qualquer coisa é perigoso, que construiu uma armadura de crueldade porque era a única coisa que a mãe lhe ensinou. Os diálogos com Viola são afiados, carregados de tensão e eles brigam como quem escreve romance, e você percebe isso antes deles.

Enfim, os dois  personagens principais fazem um acordo: Viola ajuda Roze a descobrir a verdade sobre a morte do rei e, em troca, ele tenta mantê-la viva, mesmo tendo recebido ordens da própria mãe para matá-la. E é aí que começa uma das melhores partes do livro para mim: a relação entre os dois.

Porque, inicialmente, eles se odeiam. E não é aquele “odeio você” que dura três capítulos antes de virar romance. Eles realmente se provocam, brigam, desconfiam um do outro e passam boa parte da história tentando entender até onde podem confiar na outra pessoa. Só que, aos poucos, eles começam a perceber que possuem muito mais em comum do que imaginavam. Viola acredita que sua magia a torna um monstro, enquanto Roze passou a vida sendo tratado como uma arma. Ela tem medo de perder o controle de si mesma; ele tem medo de continuar sendo controlado pela mãe. E, conforme os dois se aproximam, começam a enxergar um no outro uma pessoa que não os considera monstros.

E preciso confessar uma coisa: o flerte entre esses dois nos capítulos finais me pegou MUITO. Toda vez que o Roze começava a flertar com a Viola eu ficava tímida como se ele estivesse falando comigo...Eu estava lendo e pensando “moço, calma aí”, enquanto obviamente queria que ele continuasse. A química entre eles funciona justamente porque existe toda essa construção anterior de desconfiança, medo e descoberta. Não é simplesmente o romance acontecendo porque o roteiro precisava de um casal. Existe uma conexão emocional entre os dois que faz sentido dentro da história.

Só que é justamente aí que começa a minha frustração: eu queria mais. Queria muito mais. Porque os personagens são bons. De verdade. O problema é que muitos deles parecem ter sido criados para uma história muito maior do que aquela que recebemos.

Cerise, por exemplo, é a melhor amiga de Viola e uma das personagens que eu mais queria ter visto sendo aprofundada. Ela é leal, impulsiva, sarcástica e está sempre disposta a ajudar Viola, mesmo quando a situação fica perigosa. Ela não abandona a amiga depois de descobrir que ela é uma meiga e, em vários momentos, se coloca em perigo para ajudá-la. Durante a história, Cerise acaba se tornando uma peça importante na tentativa de resgatar a professora Borges e enfrentar a rainha. Além disso tudo, tem uma das cenas mais carregadas do livro: quando ela descobre o noivado falso com os Roquelart, rompe a amizade com a Viola, porque a família dela perdeu o pai por causa do racionamento de medicamentos instituído pela nobreza. É uma cena sobre lealdade, luta de classes e o que significa escolher de que lado você está num mundo em colapso. Cerise também tem seu próprio arco inesperado: vai surgindo, ao longo do livro, que ela se envolveu com Belladonna no baile de máscaras e que não consegue parar de pensar nela. Ela reaparece no final, corajosa e ferida, defendendo Viola enquanto os monstros da rainha tentam arrastá-la para a água. E justamente por ela ter uma personalidade tão forte, fiquei com a sensação de que a personagem poderia ter sido muito mais aproveitada.

E aí temos São Waffles, que simplesmente merece seu próprio parágrafo porque é impossível falar desse livro e não falar dele. Enrugadinho das garras até o rabo curto, com dentinhos aparecendo sobre os lábios caídos, asas de morcego dobradas nas costas e uma lealdade inabalável à Viola, ele é a criatura mais adorável da literatura fantástica de 2025. Waffles é uma gárgula enviada para proteger Viola e, apesar de inicialmente parecer apenas o bichinho fofo que acompanha a protagonista, descobrimos que ele é muito mais importante do que isso. Ele é extremamente protetor e tem uma ligação muito forte com Viola. Durante o confronto final, ele acaba sendo transformado em pedra pela magia da rainha (uma que arrancou o coração, um crime que Amber Hamilton nos tenha feito isso), porém, Belladonna revela que possui o poder necessário para desfazer aquilo. Viola pede que ela salve Waffles e também cuide de Cerise.

E eu preciso deixar registrado aqui: EU PRECISO SABER SE O WAFFLES FOI CURADO. Porque o livro não me dá essa resposta de forma satisfatória. E essa é uma das coisas que mais me incomodaram no final.

Belladonna, inclusive, foi uma personagem que ganhou bastante importância para mim conforme a história avançava. Ela é a irmã mais velha de Roze e filha da rainha Maria, mas também é uma meiga de luz. Ela possui uma habilidade capaz de desfazer parte daquilo que a mãe cria e, durante o confronto final, acaba sendo usada pela própria rainha como uma espécie de instrumento. Só que, em determinado momento, consegue recuperar parte do controle sobre si mesma e acaba ajudando Viola. A fachada dela é de vilã (derruba vinho em Viola no baile, comanda com uma frieza calculada) mas Cerise revela algo crucial: Belladonna suportava o pior da tortura da rainha Maria em silêncio para que as irmãs e Roze não precisassem. Ela é quem cuida deles à sua maneira brutal. E é Belladonna que segura São Waffles, transformado em pedra, prometendo desfazer o que a mãe fez.

E eu gostei muito dessa escolha porque mostra que nem todos os filhos da rainha são simplesmente extensões dela. Belladonna também está presa naquela família, naquele sistema e naquela lógica de poder. Ela é filha da mesma mulher que destruiu tantas vidas, mas isso não significa que precise repetir as escolhas dela.

O problema é que Belladonna não é a única irmã de Roze. Existem outras cinco princesas: Wisteria, Azalea, Oleandra, Narcissa e Hemlock (as outras cinco princesas, todas com nomes de plantas como o próprio Roze). E aqui entra novamente aquela sensação de desperdício de potencial. O livro apresenta todas elas, estabelece uma dinâmica familiar, mostra que possuem personalidades diferentes e que existe uma relação muito particular entre elas, mas não temos tempo suficiente para realmente conhecê-las…elas aparecem no jantar, em festas sociais e no clímax controladas pelo espírito da rainha Maria, emergindo de poças d'água como marionetes. Têm personalidade e visibilidade suficientes para criar interesse, mas o livro as usa mais como ameaça do que como personagens. Quando o espírito da rainha é derrotado, elas afundam de volta na água e desaparecem.

E isso me deixou pensando: o que aconteceu com elas? Elas sobreviveram? Foram libertadas do controle da mãe? Belladonna conseguiu ajudá-las? O que aconteceu depois? São perguntas que ficam simplesmente no ar. E não é só com elas.

Ed Paschal e Fletcher Llopart são os amigos de Roze, membros da organização secreta Fiat tenebrae, identificada pela tatuagem de mariposa no pulso. Ed é o charmoso que faz piada de tudo; Fletcher é o sério de óculos retangulares que faz comentários desconcertantes sobre o mingau do café da manhã como se fosse a coisa mais importante do mundo. os dois compõem um elenco secundário bem construído que o livro nunca tem tempo de desenvolver direito.

A professora Borges também é uma personagem que eu gostaria de ter visto muito mais. Ela sabe muito mais sobre Viola do que revela inicialmente e tem uma relação importante com toda a história da protagonista. Borges sabe da verdadeira identidade de Viola, sabe sobre sua origem e tenta protegê-la durante anos, mesmo escondendo informações importantes dela. Quando finalmente entendemos o papel da professora em tudo aquilo, eu achei interessante, mas também senti que a revelação chegou tarde demais. Porque Borges tinha potencial para ser uma personagem muito mais complexa. E ainda fica aquela pergunta: ela simplesmente sobreviveu? Como nós sabemos, a professora Borges é a mentora enigmática que entregou o livro de runas a Viola, era meiga também, e tinha ligações diretas com a missão do rei León de proteger Viola em Aragoa. ela é presa, resgatada por Viola e Cerise nas masmorras, e então quando tem a chance de ajudar e o leão de pedra da rainha aparece na sala do trono, ela foge pela porta que se abre, abandonando as duas meninas. isso é tudo o que o livro nos dá sobre ela. se sobreviveu? Não sabemos. Se foi embora para Castelle? Não sabemos. Ela simplesmente some pela porta e o livro segue.

E é exatamente isso que começou a me incomodar cada vez mais conforme eu chegava ao final. O livro apresenta um personagem, constrói uma história, cria um conflito, faz aquela história parecer extremamente importante e depois simplesmente pula para a próxima coisa.

Kole é outro exemplo. Kole Belcamp é o personagem que mais dói, não pela razão que você imagina. era o menino de olhos verde-musgo, filho de um engenheiro da guarnição, que Viola frequentava com algo que ela achava que era amizade e que talvez fosse mais do que isso. Quando Viola finalmente conta a ele que é meiga, procurando apoio, Kole reage com medo e raiva, colocando a própria segurança acima de tudo. as sombras de Vi escapam da confrontação emocional, e ele acaba morto, sem que ela tenha querido, sem que ela tenha percebido até encontrar o corpo. é a mesma tragédia que aconteceu com o irmãozinho, só que anos depois. e Viola carrega isso pelo resto do livro.

O Kole é um personagem importante na trajetória de Viola e uma das pessoas que tenta ajudá-la. Sua morte tem um peso enorme para ela porque acontece justamente quando suas sombras saem de controle. Viola passa a carregar uma culpa ainda maior por aquilo e isso reforça seu medo de que sua magia realmente faça dela um monstro. Essa parte poderia ter sido devastadora. E é. Mas eu queria que tivesse sido ainda mais. Queria que o livro tivesse parado um pouco mais para explorar o impacto daquela morte na Viola. Queria vê-la processando aquilo, entendendo que o que aconteceu não define quem ela é. Queria mais consequências. Porque esse livro tinha personagens suficientes para construir uma história muito mais emocional.

E então chegamos à família de Viola.

Durante boa parte da história, acreditamos que Martin e Elise Sinclair são seus pais. Depois descobrimos que eles eram, na verdade, seus pais adotivos e que Viola é filha biológica de León, rei de Castelle, e rainha Isabel. E essa revelação muda completamente a história. Viola não é apenas uma garota escondendo magia. Ela é filha de um dos homens que estavam no centro da guerra entre Aragoa e Castelle.

Alexandre e León tiveram uma relação secreta durante o período em que os dois reinos estavam em conflito. Eles se conheceram ainda jovens, estudando na Academia Vandenberghe, e acreditavam que poderiam acabar com a guerra e unir os dois reinos, só que não deu certo devido os reinos serem inimigos e cada um seguiu sua vida. Alexandre com Maria, e León com Isabel.

Viola nasceu da relação do rei e da rainha de Castelle e acabou sendo escondida (com ajuda do rei Alexandre) justamente para protegê-la. E, sinceramente, essa parte é uma das que mais me fez pensar que o livro precisava de mais capítulos. Porque isso é ENORME. A protagonista é literalmente filha do rei que poderia ter mudado o destino de dois reinos inimigos.

Pensa comigo: Viola cresceu acreditando que tinha uma família, pais adotivos (“guardiões” escolhidos pelo rei León de Castelle antes que as Brumas chegassem) e um irmãozinho, filho biológico deles. Quando ela tinha cerca de cinco anos, o irmão tentou pegar seu medalhão de relicário. Viola ficou com raiva. E as sombras escaparam e o irmãozinho acabou morrendo. 

Os pais adotivos, aterrorizados com o que ela era, a colocaram no orfanato…é por isso que ela não tem família, é por isso que ela controla cada emoção com uma precisão de cirurgião. E é o fantasma do irmãozinho que vai assombrá-la ao longo de todo o livro, chamando-a repetidamente de Annie sangrenta, o apelido que se transformou na acusação que ela carrega sobre si mesma há anos. A cena em que ela finalmente conta essa história para Roze, sozinha, na beira da cama dele, é uma das mais dolorosas e bonitas do livro.

Esses acontecimentos não deveriam ser apenas uma revelação próxima de reta final e sim ser um dos pilares da história.

O rei León também é um personagem que eu gostaria de ter conhecido melhor. Ele representa a origem de Viola, mas aparece tarde demais para que tenhamos tempo de construir uma relação emocional realmente profunda entre os dois. O mesmo acontece com toda a história de Alexandre, cuja morte é o grande mistério que move boa parte da narrativa. O rei León de Castelle (pai biológico de Vi) aparece de forma fascinante: através do Livro de Acasos, um caderno mágico que funciona como canal de comunicação entre quem carrega o sangue das linhagens reais, é por esse livro que Viola descobre quem é. León aparece como um homem que tomou decisões impossíveis durante a guerra, incluindo enviar a filha para longe e que colaborou com o rei Alexandre de Aragoa numa tentativa de construir um reino unificado. O símbolo do leão e do dragão entrelaçados na capa do livro não representa uma luta, mas um abraço: o sonho de paz que os dois reis nunca conseguiram concretizar.

E então temos o irmãozinho de Viola, que é talvez uma das partes mais tristes da história dela. Durante anos, Viola acredita que matou o próprio irmão quando sua magia saiu de controle. Essa culpa a acompanha durante toda a vida e contribui para a maneira como ela enxerga suas sombras. Só que o fantasma dele aparece durante a história e, no final, descobrimos que ele não está ali simplesmente para puni-la. Pelo contrário. Ele acaba ajudando Viola e mostrando que ela precisa parar de fugir de quem é. Essa relação é muito bonita porque representa uma das maiores feridas da protagonista. Viola passou anos acreditando que aquela morte provava que ela era uma pessoa ruim, quando, na verdade, ela era apenas uma criança que não entendia a própria magia. E isso nos leva novamente ao tema central do livro: a ideia de que a magia não determina o caráter de uma pessoa.

A rainha Maria possui um poder enorme e escolhe usá-lo para controlar, manipular e destruir. Viola possui magia das sombras e escolhe lutar para proteger as pessoas. Belladonna possui magia de luz e também é vítima do sistema criado pela própria mãe. Ou seja, o problema nunca foi simplesmente a magia. Foi o que as pessoas escolheram fazer com ela. E eu gostei MUITO dessa mensagem.

Também gostei da existência dos Grimmstones, a sociedade secreta da qual Roze, Ed, Fletcher e outros personagens fazem parte. Eles guardam conhecimentos, artefatos e informações que foram escondidos pela Coroa e acabam sendo fundamentais para a investigação. Ed e Fletcher também trazem uma dinâmica interessante para a história, especialmente porque funcionam como uma espécie de contraponto para Roze.

Mas, novamente, eu queria mais. Queria entender melhor os Grimmstones. Queria saber mais sobre sua origem. Queria conhecer mais membros. Queria entender melhor o que eles fazem depois de toda a confusão.

E talvez seja justamente esse o problema de Sete Espinhos Mortais: eu sempre queria mais. Só que não no sentido de “o livro foi maravilhoso e eu queria continuar naquele universo”. Era mais uma sensação de “você acabou de me apresentar uma coisa muito interessante e agora vai simplesmente embora?”. E aí chegamos ao final.

A rainha Maria é finalmente enfrentada, as Brumas começam a desaparecer e Viola consegue acessar todo o potencial da própria magia. Roze também rompe, de certa forma, o controle que a mãe exercia sobre ele. Os dois acabam se sacrificando durante o confronto e chegam ao Reino da Morte.

E foi aqui que eu fiquei completamente dividida. Porque eu gostei do conceito do final.

Quando a história chega no seu ápice (tenso, bonito, com aquele tipo de sacrifício que corta por dentro) o epílogo aparece e em questão de parágrafos acaba. Viola e Roze acabam indo para Castelle, que o livro chama de Reino da Morte, depois da batalha final. Mas não como morte literal: a lógica do livro sugere que as sombras de Viola os absorveram e os transportaram para Castelle, que antes era associado à morte porque a magia sombria usada em excesso corrompia a terra, tornando-a o além. Com o fim do controle da rainha Maria, a terra de Castelle começa a se curar e Viola e Roze acordam juntos num campo ensolarado, com árvores e abelhas e flores, o sol real pela primeira vez, Roze descobrindo que pode enxergar a cor verdadeira dos próprios olhos. Eles não morreram. Eles chegaram em casa.

Mas o epílogo dura exatamente o suficiente para instalar essa cena e encerrar a história com um “bem-vinda de volta, princesa” palavras de Roze apontando para um castelo ao longe, entre montanhas negras como carvão. E então acabou.

O Reino da Morte não é apresentado simplesmente como um lugar de punição. Para Viola, existe uma sensação de pertencimento ali, quase como se ela finalmente tivesse encontrado um lugar que reconhecesse aquilo que ela é. Para Roze, é também uma libertação, porque a influência da mãe não consegue alcançá-lo naquele lugar.

E existe algo muito bonito no fato de que eles terminam juntos.

Depois de passarem a história inteira tentando sobreviver, fugir, descobrir a verdade e lutar contra pessoas que queriam separá-los, os dois finalmente encontram um lugar onde podem existir sem medo.

Só que, ao mesmo tempo... QUE FINAL VAZIO.

Porque eu terminei o livro com umas quinze perguntas na cabeça. Belladonna conseguiu salvar Waffles? As outras irmãs de Roze sobreviveram? Cerise sobreviveu? A professora Borges realmente é uma covarde? O que aconteceu com os Grimmstones? O que aconteceu com Aragoa? O que aconteceu com Castelle? Como os reinos reagiram depois da queda da rainha? O que aconteceu com os meigas depois que as Brumas começaram a desaparecer?

E, principalmente, Viola e Roze realmente morreram ou foram, de alguma maneira, transportados para o Reino de Castelle/Reino da Morte? Porque o próprio final deixa espaço para interpretar que eles não simplesmente morreram.

Eles chegam ao Reino da Morte e, naquele lugar, Viola reencontra uma parte de sua própria origem. Roze também finalmente está livre da influência da mãe. O epílogo trata a chegada dos dois muito mais como uma libertação do que como uma tragédia definitiva.

E eu até gostei disso. O que eu não gostei foi a falta de consequência. Eu queria ver o que aconteceu depois. Queria um capítulo mostrando Belladonna. Queria saber de Waffles. Queria saber de Cerise. Queria saber da professora Borges. Queria saber das irmãs. Queria saber dos Grimmstones. Queria saber dos reinos. Queria entender como aquele mundo ficou depois da queda da rainha.

E é por isso que, sinceramente, eu acho que Sete Espinhos Mortais precisa de uma continuação.

Não necessariamente porque a história de Viola e Roze ficou sem final. A história deles, de certa forma, terminou. Mas porque o universo inteiro ficou pendurado. E, até onde consegui verificar, o livro não apresenta uma continuação. Então ficamos simplesmente com todas essas perguntas e com a esperança de que algum dia a autora resolva voltar para esse universo.

O que ficou sem resposta:

Belladonna conseguiu salvar São Waffles? Ela prometeu, mas o livro não nos mostra o desfecho, não temos nem confirmação de que Waffles voltou a ser de carne e osso. Isso, por sinal, é o tipo de lacuna que dói mais.

Cerise sobreviveu? A última cena com ela é ela brandindo uma espada contra monstros aquáticos da rainha, gritando para Viola fugir enquanto as criaturas a arrastam para a água. Viola obedece e nunca mais vemos Cerise no livro. Se ela sobreviveu, o livro não nos conta, para uma melhor amiga com arco tão forte, esse abandono narrativo dói.

As irmãs do Roze sobreviveram? Elas são controladas pelo espírito da rainha, que usa o corpo de Belladonna e depois invoca as outras pelo nome. Quando Vi derrota o espírito, as princesas afundam nas poças e desaparecem. Não temos certeza se sobreviveram ou se foram levadas junto com a rainha.

A professora Borges simplesmente fugiu? É o que parece. ela aparece, ajuda um pouco, vê o leão-estátua atacar e sai correndo pela primeira porta que se abre. Não reaparece. nenhuma explicação.

E Ed e Fletcher? Os amigos de Roze, os Grimmstones, são resgatados por Viola e Roze no clímax, presos nas paredes pelo poder da rainha, quase inconscientes. Conseguem sair. Mas depois? Nada.

No final das contas, Sete Espinhos Mortais foi uma leitura de altos e baixos para mim. Começou devagar, me fez esperar bastante até as coisas realmente acontecerem e, quando finalmente chegou ao ápice, entregou tudo rápido demais. Foi como passar metade do livro subindo uma montanha e, quando finalmente chegamos ao topo, alguém empurrar a gente ladeira abaixo.

Esse livro é uma releitura de Branca de Neve e isso é o maior trunfo. Não é superficial, não é só estética: está na estrutura, nos símbolos, nos personagens. a maçã vermelha que Roze carrega não é o veneno da cena clássica, é o símbolo do privilégio num reino de escassez, a única fruta fresca num mundo sufocado pelas Brumas, reservada exclusivamente para a família real. A cena em que ele estende a maçã pra Viola e o que aquilo significa dentro da relação que eles construíram, é um dos momentos mais bem calibrados do livro inteiro.

O Espelho Mágico aparece de forma literal, com consciência própria e uma personalidade que vai te surpreender. Roze como Príncipe-Caçador é uma inversão elegante: ele é o caçador designado para matar Viola, mas é o coração que deveria entregar à rainha que ele guarda. e os sete espinhos do título? São os sete dias que a rainha concedeu para que ele a mate. Cada parte do livro é um espinho a mais.

Eu gostei dos personagens. Gostei de Viola, gostei de Roze, gostei de Cerise, gostei de Belladonna, gostei de Waffles, gostei da dinâmica dos Grimmstones e achei toda a história envolvendo León e Alexandre muito interessante. O problema é que quase todos eles poderiam ter sido muito mais aprofundados.

Por isso, minha nota ficou em 3,5 estrelas.

Não porque tenha sido um livro ruim. Muito pelo contrário. Acho que ele tinha uma ideia muito boa, personagens interessantes e um universo com potencial gigantesco. Mas justamente por enxergar esse potencial, eu terminei sentindo que faltou alguma coisa.

Foi um livro que prometeu tudo e não entregou tudo.

Prometeu mistério e eu queria mais respostas. Prometeu personagens complexos e eu queria mais desenvolvimento. Prometeu um universo gigantesco e eu queria conhecer mais dele. Prometeu um final grandioso e eu queria mais consequências. E talvez o mais frustrante seja que eu não terminei pensando “ainda bem que acabou”. Eu terminei pensando: “EU PRECISO DE MAIS 200 PÁGINAS.” E esse é o tipo mais específico de sofrimento literário. Porque as páginas não existem.

Então aqui estou eu, oficialmente órfã de respostas, sem saber se Waffles voltou ao normal, sem saber o que aconteceu com as irmãs do Roze, sem saber se Cerise está viva, sem saber o destino da professora Borges e tentando entender se Viola e Roze morreram ou simplesmente encontraram uma nova vida no Reino da Morte.

No fim, talvez a maior ironia de Sete Espinhos Mortais seja justamente essa: um livro construído em torno de segredos terminou deixando segredos demais. E eu queria respostas. Mas, apesar de tudo, acho que é justamente por ter enxergado tanto potencial nessa história que não consigo dar uma nota menor.Porque Sete Espinhos Mortais me irritou, me deixou curiosa, me fez torcer pelos personagens, me fez querer respostas e, principalmente, me fez terminar o livro ainda pensando naquele universo.

Só faltou o livro ter coragem de ficar mais um pouquinho nele.

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Até a próxima resenha e gratiluxxx por ter lido tudo isso kkkkkk
Beijux da Bea! 🍒


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